Parem a roda
“Parem a roda um pouco por causa do tiro para Zumbi”, disse o policial com traços misturados índio, braço e negro.
Repete com firmeza, certamente sem noção do absurdo.
E a roda para, apesar da indignação de um.
Aquele que cuidava da roda apóia a autoridade fardada, na convicção de que aquilo era o mais certo a se fazer.
Único momento em que a capoeira para em toda serra.
Lutadores, que jamais foram guerreiros, abaixam a cabeça (o berimbau) para o estado.
Ora bolas!
O tiro que matou Zumbi!
Em outras palavras, ‘Parem um pouco, povo alienado, que o Estado vai lembrar do assassinato do líder quilombola que executara em outrora.’
Poool! Poool!
...
E nem sei quantos tiros foram.
Simbolicamente: ‘Ouçam. É para saber que aqui é o Estado quem manda.’
Zumbi em nossos ouvidos a vitória do Estado!
Daquele quem manda na serra e garante o desvio do dinheiro que há anos prometem usar para calçar a estrada de acesso.’
A confraternização é boa, mas geralmente é estragada pelos políticos do Estado.
Um blá, blá, blá cansativo, em cima de um desnecessário palco. Além dos puxa sacos nas sombras dos governantes, raros são os que prestam atenção sob o sol quente.
Depois dos tiros, aplaudidos por palmas apoiadas por alguns berimbaus, as pernadas voltam, assim como o restante do blá-blá
A grande maioria joga uma capoeira desligada de seu processo político.
Salvam-se poucos momentos de resistência política, puxado por raros Mestres e suas prosas de conscientização.
Mesmo com um pouco de violência aqui ou ali, o balanço de jogar o dia inteiro da serra é bom, e jogar em várias rodas, com tantos capoeiristas de tantos grupos é o que faz valer a experiência de cada um.
A capoeira que era referência para luta contra a opressão, hoje é politicamente pobre no alto da serra em dias de Consciência Negra.
Uma “desmemoriação” nos impede de dar a volta ao mundo.
Esquecemos que a questão jamais foi de brancos contra negros.
Mas foi de brancos pobres, índios e negros que lutavam por liberdade e contra um Estado materializado em brancos que queriam um pouco de terra, de índios em busca de uma distorcida dignidade, e de negros que aprenderam a odiar os quilombos.
Continuem a roda. A luta não acabou.
“Tava lá em casa. Sem pensar nem imaginar. Quando ouvi bater na porta. Salomão mandou chamar. Para ajudar a vencer. A batalha liderar ...”
Rafael Pereira
Vez por outra acho que estava nos dias que antecederam a grande batalha e sou capaz de ver a cena da "VELHA NICETA" profetizando " O DIABO É BRANCO, TEM UMA BARBA ENORME E TEM UM GRITO MAIS ALTO QUE O TROVÃO"
ResponderExcluirO cego simplesmente não anda sobre o terreno que não tenha sido totalmente examinado pela sua bengala. Cuidado com citações que não conhece, ou não domina.
ResponderExcluirCristão.